Trabalhando de Labour na Nova Zelândia

Já fazia quase um mês desde que tínhamos desembarcado em Auckland e desde então nossos gastos se acumulavam ao longo dos dias. Comida, transporte, moradia… por mais que nós tivéssemos nos preparado e planejado ficar até 3 meses sem precisar trabalhar, começou a bater um desespero de ver nosso dinheiro só diminuindo.

E foi assim que começamos nossa busca por emprego aqui na NZ, cerca de 20 dias depois da nossa chegada.

No começo tudo parecia muito difícil, ainda estávamos nos adaptando ao idioma, ao clima, as aulas já haviam começado, e nenhuma das vagas que aplicamos havia dado algum retorno. Então resolvi me cadastrar em algumas agências de labour, dessas que contratam estudantes e outros viajantes temporários para serviços gerais na área da construção. Peão mesmo, saca?

A primeira a me dar um retorno foi a Onestaff, que me chamou para uma espécie de entrevista. E lá fui eu, sem a menor idéia do que eu ia fazer.
Bom, a moça que me atendeu pediu para eu preencher um formulário com meus dados, um outro assinalando minhas experiências profissionais (nulas, no que diz respeito a trabalhos braçais), mais alguns papéis atestando que eu estava fisicamente apto para o tipo de trabalho, me falou um pouco sobre o tipo de trabalho que eles poderiam me arrumar e perguntou se eu realmente tinha interesse no trabalho. Sim, eu tinha! Não via a hora de ganhar algum dinheiro, seja lá qual fosse o trabalho!

Então ela pediu que eu entrasse em um banheiro e urinasse dentro de um potinho. Isso mesmo, caí no antidoping sem nem entrar em campo! Mas como sou caretão, tava tudo limpo.
Depois, me deixaram numa sala junto com outro cara assistindo um vídeo sobre segurança no trabalho, com as encenações mais bizarras e mórbidas, e ainda nos fizeram responder um teste para avaliar nosso entendimento sobre o assunto. Pra fechar, como eu não tinha nenhum equipamento para trabalhar, ganhei um kit com botas, colete laranja, capacete, óculos, luvas e protetor de ouvidos.
Ah, também assinei um termo me comprometendo a devolver o kit caso eu me desligasse da empresa, caso contrário seria descontado dos meus rendimentos.

Voltei pra casa sem ter certeza de quando eu começaria a trabalhar e nem de qual seria o trabalho, até que logo nos dias seguintes recebo uma ligação da mesma moça me chamando para um trabalho.

Minha função seria cimentar uma estrutura dentro de uma empresa de tratamento de lixo…… Bora!
Compareci no horário combinado pra pegar carona com 2 iranianos até o local do trabalho. Passei quase 10 horas trabalhando, espalhando cimento em uma ladeira por cima de uma tubulação, debaixo de sol. Entre um caminhão de cimento e outro, contava meus planos a um funcionário da empresa que estava nos ajudando no dia, e ouvia algumas palavras de incentivo.

No fim, já cansado, os iranianos acabaram me deixando no ponto de ônibus errado e ainda tive que andar mais 30 minutos até o ponto certo. Era um trabalho de um dia só, agora teria que esperar a agência me ligar de novo.
Cheguei em casa esgotado, confesso que fiquei me perguntando se valia a pena passar por isso. A resposta veio logo que recebi meu pagamento, algo em torno de $160 pelo dia. Não via a hora de ir de novo!

A Onestaff nunca mais me chamou pra nenhum trabalho, mas em compensação, logo na semana seguinte recebi uma ligação da AWF, a maior agência de recrutamento nessa área.
Compareci ao escritório e passei pelo mesmo processo de contratação. Dessa vez me garantiram trabalho toda segunda e terça, os únicos dias que eu tinha disponibilidade.
Era só esperar a van ali no centro, ir até a agência e eles me levariam até o local de trabalho. Aliás, eles me pareceram muito mais organizados e com muito mais trabalho pra oferecer.

E essa foi minha rotina por algumas semanas. Trabalhei carregando entulho, serrando tábua, desmontando andaime, descarregando caminhão, reformando jardim, cortando mato na beira da estrada, usei britadeira (!), misturei cimento… embaixo de chuva ou de sol, e qualquer outra coisa que me pedissem pra fazer na obra, quase sempre ganhando o salário mínimo ($15.25 /hora).
Fiz isso por pouco mais de um mês, até ser chamado pra trabalhar em uma loja de móveis como vendedor.

Durante esse tempo conheci gente do mundo todo, uns juntando uma grana pra poder continuar viajando, outros se virando pra ajudar a família. Me divertia na volta pra casa ouvindo as histórias e falando besteira. Pode parecer cliché, mas também foi legal me despir desse preconceito que eu achava que não tinha, mas que no fundo sempre achava que as pessoas estavam me julgando por estar voltando todo sujo de um dia de trabalho. Vale lembrar que sempre fui tratado com enorme respeito por aqui.

Voltava pra casa sempre bastante cansado, mas com uma sensação bacana de que havia feito algo importante. Eu que estava acostumado a ver o resultado do meu trabalho somente em números, dessa vez podia ver o resultado ali com meus próprios olhos.

Não posso dizer que esse é o tipo de trabalho que eu quero pra minha vida, mas afirmo com toda certeza que se um dia eu precisar estarei lá com meu “kit peão” na mochila, pronto pra outra.

ps: até hoje, a Onestaff nunca me cobrou pelo kit, mas também nunca mais me chamou pra trabalhar… acho que esqueceram de mim.

 

  1. Valeu pelo relato. Muito rico seu texto viu!
    Obrigadão pela força aos que estão aqui juntando coragem para essa jornada!

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    1. Obrigado você por ler nossos relatos. Continuamos aqui incentivando e ajudando aqueles que querem seguir o mesmo caminho. Se precisar é só gritar!

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